QI Tech, fintech pouco conhecida, processa crédito para 1 em cada 4 brasileiros e mira IPO nos EUA

Avaliada em cerca de US$ 2 bilhões, a empresa fundada em 2018 vira bancos sob demanda para Vivo e Wellhub e prevê faturar R$ 2 bilhões, com margem acima de 50%.

QI Tech: a gigante invisível de US$ 2 bi Vídeo: InfoMoney / YouTube · 557 visualizações

A QI Tech, fintech de infraestrutura financeira que quase ninguém vê, já teve transações processadas para um em cada quatro brasileiros, segundo o InfoMoney. Criada no fim de 2018 para transformar empresas comuns em bancos, a companhia é avaliada em cerca de US$ 2 bilhões e prevê faturar R$ 2 bilhões, com margem Ebitda acima de 50%, segundo o fundador e CEO, Pedro Mac Dowell.

Em entrevista ao podcast Do Zero ao Topo, do InfoMoney, apresentado por Mariana Amaro, o executivo afirmou que a empresa cresce mais de 50% ao ano. Por trás de serviços de clientes como Vivo, Wellhub e AliExpress, a QI Tech diz ter movimentado mais de R$ 490 bilhões em pagamentos por Pix, emitido R$ 100 bilhões em créditos e mantido R$ 180 bilhões sob administração.

Um modelo de infraestrutura, não de banco

Mac Dowell explicou que a ideia nasceu da dificuldade que enfrentava como gestor de crédito: só bancos podem emprestar, e a estrutura bancária não era feita para ser usada por terceiros. Em e-mail enviado em dezembro de 2017 a Jorge Paulo Lemann, descreveu o projeto como uma mistura de AWS com Stripe, em que o cliente paga conforme usa. A empresa abriu mão do software de core bancário tradicional e desenvolveu sistema próprio, decisão que o CEO classifica como o principal divisor de águas.

A operação se divide em quatro frentes, segundo o executivo: soluções de risco, com antifraude e verificação de clientes (cerca de 10% do negócio); bank as a service, com contas, Pix e cartões (cerca de 20%); crédito como serviço (45%); e administração de fundos. Nessa última, a QI comprou a Singulare, que, segundo ele, tinha cerca de R$ 80 bilhões sob custódia e administração, por aproximadamente R$ 800 milhões.

Ele afirmou que a empresa emite entre R$ 9 bilhões e R$ 12 bilhões por mês em crédito, em cerca de 20 milhões de operações automatizadas. Na avaliação dele, Pix e pagamentos são commodities, e o maior valor está no crédito. O Wellhub, por exemplo, usa a estrutura para financiar academias com recursos próprios depositados em um fundo.

Obstáculo tributário e capital estrangeiro

O início teve sustos regulatórios. Primeira sociedade de crédito direto autorizada pelo Banco Central, a empresa descobriu, ao começar a operar em maio de 2019, que a Receita não a reconhecia como instituição financeira, o que, em tese, exigiria emitir nota fiscal a cada TED. Segundo Mac Dowell, após cerca de 20 dias sem recolher o imposto, o secretário da Fazenda paulista publicou uma normativa no Diário Oficial. "Foi calafrios, várias noites sem saber se ia dar certo", disse. O episódio ilustra o peso da burocracia tributária sobre quem inova no país.

O capital veio de investidores de peso. O fundo soberano de Singapura GIC aportou R$ 270 milhões, e a chegada da DAE, entre 2023 e 2024, levou a empresa à condição de unicórnio, com avaliação de US$ 1,2 bilhão na época e captação de quase R$ 2 bilhões, conforme o CEO.

IPO nos EUA e o que isso diz sobre a bolsa brasileira

Mac Dowell disse que a empresa se prepara há um ano e meio para abrir capital e que o alvo seria os Estados Unidos. Para uma companhia com esse perfil de margem e crescimento, afirmou, múltiplos entre 30 e 60 vezes seriam possíveis. O CEO, porém, vê dualidade: o IPO traz visibilidade e capital, mas amplia a exposição e a burocracia, e ele cita casos de empresas que vão mal após a abertura.

Sua leitura é que, até 2027 ou 2028, boas empresas americanas, sobretudo de inteligência artificial, já terão aberto capital, e o dinheiro de investidores estrangeiros poderá buscar retorno em emergentes como o Brasil. Trata-se de projeção do executivo, não de dado de mercado. Para o investidor, o caso mostra o apetite por negócios de tecnologia financeira capazes de crescer com margens elevadas, ao mesmo tempo em que a escolha por listar nos EUA reforça a dificuldade de a bolsa brasileira reter seus melhores ativos de crescimento.

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