Fed mantém juros em 3,75% a 4% com dois votos pela alta, e mercado já precifica aperto em dezembro
Cook e Hammack divergem em decisão de 10 a 2; Wall Street vê 88% de chance de alta em dezembro, com inflação teimosa e economia aquecida pela IA
O Federal Reserve manteve a taxa básica de juros na faixa de 3,75% a 4%, mas a decisão foi dividida: o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) votou por 10 a 2, com a governadora Lisa Cook e a presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, defendendo um aumento de 0,25 ponto percentual. A informação foi transmitida pela Bloomberg Television, em edição especial do programa Bloomberg Surveillance.
O dissenso de Cook foi o destaque da tarde. Segundo os apresentadores, é a primeira divergência dela em uma decisão de juros como integrante da diretoria do Fed. Um analista citado no programa observou que ela nunca havia dissentido em mais de quatro anos. O repórter Mike McKee lembrou que o presidente Donald Trump tenta demitir a governadora e defende juros menores. Os apresentadores avaliaram que a Casa Branca deve reagir.
O comunicado trouxe uma avaliação mais firme da economia. Segundo a Bloomberg, o texto passou a descrever a atividade como em expansão em ritmo "forte", e não mais "sólido". Disse ainda que o consumo segue resiliente, a produtividade é forte, o investimento de capital é robusto e o desemprego pouco mudou. A inflação, afirma o Fed, continua elevada, e a acumulação de mais informações ajudará a definir a postura adequada para garantir o retorno "oportuno" da inflação à meta de 2%.
Mercado já esperava a pausa
A manutenção dos juros era a aposta dominante em Wall Street. Pouco antes do anúncio, a probabilidade de alta era estimada em cerca de 7%, após sinalizações do vice-presidente do Fed, Philip Jefferson, e do presidente do Fed de Nova York, John Williams, de que um aumento em outubro era improvável. Após a decisão, o mercado passou a precificar 88% de chance de alta em dezembro, segundo dado citado no programa.
A reação foi contida. Os rendimentos dos Treasuries de dois anos subiam cerca de 2 pontos-base, e o de dez anos ficava perto de 4,76%. O S&P 500 e a Nasdaq avançavam cerca de 0,2%. A atenção do mercado se voltava aos balanços de Google e Microsoft, previstos para as horas seguintes.
Inflação, crescimento e o dilema do Fed
O economista Torsten Slok, da Apollo, afirmou que a inflação de 3,7% na medida cheia e a força do mercado de trabalho justificariam uma alta pela regra de Taylor. Para ele, a economia é "bifurcada": setores sensíveis a juros, como habitação e automóveis, vão mal, enquanto o consumo de renda alta e os gastos fiscais seguem firmes. Segundo Slok, o PIB nominal avança perto de 6%, com inflação em torno de 4% e PIB real próximo de 2%.
O ex-vice-presidente do Fed Richard Clarida disse que o comitê parece dividido entre quem quer uma recalibração e quem prefere gerenciar riscos e esperar mais dados. Segundo ele, o PIB nominal ficou perto de 7% nos últimos quatro trimestres, ritmo incompatível com a meta de 2%. Clarida ponderou que a IA deve elevar a produtividade e, no futuro, ajudar a reduzir a inflação, o que complica a decisão.
Diane Swonk, da KPMG, avaliou que o Fed mostra cautela quando deveria mostrar convicção, depois de mais de cinco anos com a inflação acima da meta. Ela também citou a pressão da dívida: segundo a economista, a relação entre dívida e PIB subiu de 79% para 101% e o déficit chegou a US$ 2 trilhões no ano fiscal de 2026, o que exige maior compensação dos investidores.
O que observar até dezembro
A coletiva do presidente do Fed, Kevin Warsh, foi anunciada como curta, sem perguntas de acompanhamento. A pergunta central, segundo os apresentadores, é por que o banco central não elevou os juros se considera a inflação o principal problema. Analistas ouvidos no programa projetaram alta em dezembro, e a economista Stephanie Roth, da Wolfe Research, disse acreditar que o Fed aguardou o fim das eleições de meio de mandato. Para o investidor, o debate sobre juros mais altos, dívida pública e o fôlego dos investimentos em IA seguirá no centro do mercado.



