Fed mantém juros em 3,75% a 4% e reduzirá o número de reuniões com decisão de taxa a partir de 2027
Presidente Kevin Warsh anuncia reunião só de estratégia, sem voto nem comunicado, e diz que a inflação, acima da meta há quase seis anos, segue prioridade.
O Federal Reserve manteve a taxa básica de juros na faixa de 3,75% a 4% nesta quarta-feira, e seu presidente, Kevin Warsh, aproveitou a entrevista coletiva para anunciar uma mudança no calendário: a partir de 2027, uma das oito reuniões anuais do Fomc será dedicada exclusivamente à estratégia de política monetária, sem votação sobre os juros e sem comunicado. A transmissão foi veiculada pelo canal Yahoo Finance.
Warsh disse esperar que, em 2028, duas reuniões tenham esse formato, o que deixaria seis encontros por ano para a definição da taxa. Segundo ele, o Fomc continua com oito reuniões anuais, mas o calendário é "uma escolha institucional" que afeta a qualidade das deliberações. Ele afirmou que os detalhes do que será divulgado nas reuniões de estratégia ainda não estão definidos e serão apresentados no próximo outono.
Economia forte, inflação alta
O diagnóstico apresentado pelo presidente do Fed foi de atividade em expansão. Segundo Warsh, o PIB do primeiro semestre foi revisado de 1,8% para 2,4%, e o terceiro trimestre parece ter tido avanço ainda mais rápido, com consumo acima de 3% e investimento empresarial crescendo a um ritmo de dois dígitos. Ele afirmou que os gastos de capital estão em participação historicamente alta do PIB e que o investimento em alta tecnologia lidera a aceleração, embora haja ampliação para outras categorias.
No mercado de trabalho, a taxa de desemprego está menor que há um ano e a criação de vagas está acima do ritmo do ano passado. Os pedidos semanais de seguro-desemprego, em média móvel de quatro semanas, estão no menor nível em gerações, segundo o dirigente.
O problema, afirmou Warsh, é a inflação, que está acima da meta do comitê há quase seis anos. Ele disse que os preços de energia voltaram a subir nas últimas semanas e que o papel do Fed é impedir que a alta de preços relativos em alguns setores se espalhe pela economia e que as expectativas sigam ancoradas. Perguntado por um repórter do New York Times por que não elevou os juros já nesta reunião, já que a maioria dos colegas parecia favorável a uma alta em dezembro, Warsh respondeu que o combate à inflação não depende de uma data fixa nem de um dado isolado. Disse que o comitê reafirmou a meta de 2% e que, em setembro, retirou "uma dose de acomodação". Reconheceu, porém, que a estabilidade de preços ainda não foi alcançada.
Juros, IA e política
Sobre o boom de investimentos em inteligência artificial, Warsh disse ser cético em relação à tese de que o setor estaria isolado dos juros. Para ele, "os juros se infiltram nas frestas" e afetam direta ou indiretamente quase tudo. Citou como evidência desde setembro a maior seletividade dos investidores, o alargamento de spreads de crédito em alguns ativos e um aperto moderado nas condições financeiras. Segundo ele, o aperto é algo com que o Fed não está desconfortável, pois indica que a política funciona sem a necessidade de, nas palavras do dirigente, jogar areia nas engrenagens da economia.
Questionado sobre uma possível meta de inflação mais frouxa, Warsh negou que exista meta implícita: o objetivo é 2%, medido pelo índice PCE. Sobre a possibilidade de nova alta ainda neste ano, ele recusou-se a antecipar decisões e disse não acreditar em orientação futura (forward guidance) fora de situações de crise. Também afirmou que não envia o seu "ponto" às projeções de juros do comitê, composto por 18 integrantes, para ilustrar a independência dos colegas.
A seis dias das eleições legislativas de meio de mandato, Warsh afirmou que a política não teve nenhum papel na decisão e que não ouviu menção ao tema na reunião. Questionado sobre comentários do presidente Donald Trump sobre a diretoria do Fed, disse que não responderia a citações de autoridades públicas. Sobre a audiência na Casa Branca a respeito de Lisa Cook, afirmou não ter conhecimento de qualquer envolvimento seu ou do Fed.
Para o investidor, o recado central é de que o Fed sinaliza continuidade do ciclo de aperto, ainda sem compromisso com data ou magnitude. O presidente também mencionou cinco forças-tarefa em andamento, incluindo uma sobre o balanço do Fed, cujas conclusões devem chegar ao comitê provavelmente no início do primeiro trimestre, e uma audiência pública sobre produtividade e empregos em 16 de novembro.



