Fed mantém juros, mas economista vê nova alta como provável e aponta eleições como fator de incerteza

Para Betsey Stevenson, ex-economista-chefe do Departamento do Trabalho, o BC americano espera ver a economia desacelerar antes de voltar a subir os juros.

Stevenson Says Fed Is Waiting to See Economy Slow Vídeo: Bloomberg Television / YouTube · 3 mil visualizações

O Federal Reserve decidiu manter os juros inalterados, em votação de 10 a 2, mas a decisão não elimina a perspectiva de nova alta. A avaliação é de Betsey Stevenson, professora de Políticas Públicas e Economia da Universidade de Michigan e ex-economista-chefe do Departamento do Trabalho dos EUA, em entrevista à Bloomberg Television no programa "Balance of Power".

Segundo Stevenson, a decisão intriga porque há um consenso de que o Fed terá, mais cedo ou mais tarde, de elevar os juros. A economista ponderou que não quis dizer se a autoridade monetária acertou ou errou, mas apontou a pergunta que ficou no ar: se a alta é provável, por que não fazê-la agora? Ela afirmou que repórteres tentaram obter uma resposta clara do presidente do Fed, Morse, sem sucesso.

Por que esperar

Na visão da entrevistada, a melhor explicação é que ninguém considera a economia superaquecida neste momento. Ela descreveu um mercado de trabalho que se move de forma lenta: o desemprego não está alto, mas também não há aperto expressivo, com pouca contratação e poucas demissões.

Segundo Stevenson, a desaceleração da atividade, somada às altas de juros já realizadas, pode ajudar a frear a trajetória de preços. O Fed, na leitura dela, quer ter mais tempo para entender o que a economia consegue fazer por conta própria. "Mais provável do que não", disse, o BC voltará a subir os juros.

Os limites da política monetária

Questionada sobre a eficácia dos juros diante de pressões ligadas à crise de energia no Oriente Médio, à guerra entre Ucrânia e Rússia e ao boom de inteligência artificial, a economista fez uma distinção. Os dois primeiros fatores, disse, são choques de oferta: o Fed não consegue reduzir o preço da energia, e o risco é que o encarecimento se espalhe pela economia e alimente uma inflação mais alta. A ferramenta do BC age reduzindo a demanda.

Já o boom de IA, na avaliação dela, continua sendo uma questão de demanda. Juros suficientemente altos, afirmou, reduziriam os investimentos no setor, embora o efeito também se propague ao restante da economia ao encarecer o crédito.

Stevenson observou que as famílias relutam em cortar gastos: a taxa de poupança cai e o endividamento cresce. Para ela, é preciso desacelerar o consumo sem derrubá-lo, mas as famílias já começam a sentir o aperto de um mercado de trabalho com menos oportunidades, juros altos e muito crédito tomado.

Eleições e contas públicas

O presidente do Fed disse que as eleições legislativas, daqui a seis dias, não pesaram na decisão. Stevenson avaliou que o pleito, ainda assim, traz incerteza, e que o Fed precisa responder a mudanças na política fiscal, o que é um dos motivos pelos quais esperar faz sentido.

Para ela, o gasto e o endividamento públicos são uma grande fonte de demanda e atuam na direção oposta à desejada pelo BC. Se o governo ficar mais restrito fiscalmente, isso ajuda o Fed ao caminhar no mesmo sentido. O desfecho nos próximos meses, concluiu, influenciará até que patamar os juros precisarão subir para levar a inflação à meta.

Para o investidor, o recado é de cautela com a trajetória dos juros nos EUA, que seguem como referência para bolsa, dólar e Nasdaq. A disciplina fiscal, nesse quadro, aparece como aliada da política monetária.

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