Fundador da QI Tech, avaliada em US$ 2 bi, diz que seu caminho começou com duas empresas que não decolaram
Em entrevista ao podcast Do Zero ao Topo, do InfoMoney, Pedro Mac Dowell conta como transformou uma dor operacional de gestor de crédito em uma infraestrutura financeira
Pedro Mac Dowell, fundador da QI Tech, afirma que a ideia da infraestrutura financeira hoje avaliada em US$ 2 bilhões nasceu de uma dificuldade prática que ele enfrentava como gestor de crédito: usar a estrutura de bancos que não foram desenhados para serviço a terceiros. O relato foi dado ao podcast Do Zero ao Topo, do InfoMoney, apresentado por Mariana Amaro.
Segundo o canal, pela plataforma passam mais de R$ 490 bilhões em pagamentos por Pix, R$ 100 bilhões em créditos emitidos e R$ 180 bilhões sob administração. Os números constam da descrição do episódio.
Uma família de empreendedores e um começo no mercado
Mac Dowell diz que o impulso empreendedor vem da família, que chegou da Europa e passou a trabalhar com café e depois com cana no interior. Ele conta que acompanhava o avô na lavoura nas férias escolares para entender plantio, colheita, transporte e comercialização. Aos 15 anos, mudou-se para São Paulo, onde jogava tênis em alto nível. Foi pelo esporte que conheceu Jorge Paulo Lemann, que o apresentou ao Banco Garantia.
Depois de se formar em administração, trabalhou na Standard & Poor's, agência de classificação de risco. Ele relata que deixou a empresa por entender que a progressão seguia o tempo de casa e não o mérito. Por conselho de Lemann, segundo ele, migrou para a gestão de recursos.
Duas tentativas até a Quatá
A primeira gestora, aberta em 2004 com dois sócios, quebrou em seis meses. Mac Dowell atribui o fracasso à falta de alinhamento entre os sócios sobre gastos, a um mercado de FIDCs ainda novo e à falta de capital: o fundo captou R$ 5 milhões, e ele diz que seriam necessários R$ 20 milhões para pagar as contas. Para isso, relata ter vendido o carro e quase tudo o que tinha. Depois, montou uma operação de fundos de crédito na Link, onde permaneceu até 2008 com participação pequena e pouca autonomia.
Em 2008, deixou a Link para fundar a Quatá Investimentos, de novo vendendo um bem pessoal. Previa R$ 28 milhões de quatro investidores, mas a crise financeira reduziu o aporte a R$ 14 milhões, vindos de Lemann e de Musnik. Com R$ 400 mil de reserva e custo de R$ 40 mil por mês, ele diz que tinha dez meses para provar o modelo. Desta vez, afirma, estruturou uma sociedade com regras claras de saída entre os sócios, com ajuda de Lemann.
A Quatá chegou a R$ 2,5 bilhões em ativos sob gestão. Ainda assim, na avaliação de Mac Dowell, uma gestora precisa de ao menos R$ 5 bilhões para ter escala, e ele buscava mais impacto.
O problema que virou negócio
Por volta de 2017 e 2018, ele passou a pensar em tecnologia. Segundo seu relato, para montar operações de crédito era preciso contratar um banco, único habilitado a emprestar, e o sistema da instituição não era feito para ser usado por terceiros. Ele viu ali uma dor clara e a ausência de empresas focadas em infraestrutura.
Em 2018, o Banco Central regulamentou as Sociedades de Crédito Direto (SCDs), que ele descreve como um tipo mais acessível de instituição financeira, abrindo-se com cerca de R$ 1 milhão. Mac Dowell, Boazi e Emílio reuniram R$ 3 milhões para fundar a empresa. Ele saiu da Quatá de forma gradual, para não abalar investidores, e diz que a QI Tech não usa capital próprio, apenas recursos de fundos.
Para o investidor, o caso ilustra, segundo o relato do fundador, o peso da regulação do Banco Central na abertura de novos modelos de negócio e a lenta burocracia de constituição de empresas no país. O nome QI vem de coeficiente de inteligência, e Tech foi acrescentado porque a companhia falaria de tecnologia.



