Ibovespa recua 13,88% após o segundo turno, e gestora usa regra de rebalanceamento para comprar ações
Segundo o Clube do Valor, aportes de R$ 4,9 milhões em fundos de ações não refletiram aposta eleitoral, mas a aplicação de um percentual-alvo definido antes da crise.
O Ibovespa fechou a segunda-feira, 26 de outubro, com queda de 13,88%, aos 176 mil pontos, depois de acionar o circuit breaker logo na abertura. No mesmo dia, a gestora do Clube do Valor executou cinco ordens de compra que somaram R$ 4,9 milhões em ações brasileiras, em movimento que o fundador, Ramiro Gomes Ferreira, atribui a uma regra de rebalanceamento de carteira, e não a uma aposta de que a bolsa se recuperaria.
Na sexta-feira anterior, o índice havia fechado em 205 mil pontos, perto da máxima histórica. Segundo o apresentador, o mercado esperava a vitória de Flávio Bolsonaro, cenário que, conforme uma casa de análise citada por ele, aparecia em 13 pesquisas. Lula foi eleito com 51,79% dos votos válidos, uma virada de mais de 10 milhões de votos em relação ao primeiro turno. Um gestor estrangeiro, também citado no vídeo, resumiu que o risco de virada do petista não estava no preço.
O tamanho da queda
Os números apresentados no vídeo dão a dimensão do movimento. O EWZ, fundo que replica ações brasileiras em Nova York, chegou a cair 27,46% na pré-abertura, e o Ibovespa futuro saiu do leilão com recuo de 19,7%. O dólar chegou a R$ 5,60 e fechou a R$ 5,40, a quinta maior alta diária desde o início do Plano Real. O circuit breaker congelou as negociações por 30 minutos, e na mínima do dia o índice tocou 169 mil pontos, queda de 17,3% sobre a sexta-feira.
Segundo o levantamento citado, o pior fechamento anterior desde 1994 havia sido o de 15,83% negativos, em setembro de 1998, durante a crise da Ásia e a moratória russa. As empresas listadas perderam R$ 734 bilhões em valor de mercado, o equivalente a 98% do valor da Petrobras. Dos 76 papéis do índice, 68 fecharam em baixa. Um grande banco recuou perto de 30%, a B3 caiu 36%, uma varejista caiu 58% e as small caps perderam 27%. Ao mesmo tempo, a bolsa registrou mais de 8 milhões de negócios, recorde.
O Tesouro cancelou leilões de títulos e recomprou cerca de R$ 7 bilhões para conter os juros, informou o apresentador. Lá fora, o S&P 500 subiu 0,7%, o que, na leitura do canal, mostra que o pânico foi restrito ao Brasil. Bancos e casas estrangeiras citados projetam Ibovespa perto de 170 mil pontos ou correções de 20% a 30%.
A lógica da compra
As ordens foram executadas em dois fundos: R$ 3,547 milhões no fundo de valor, em três ordens, e R$ 1,354 milhão no de momentum, em duas. Ferreira ressalta que o valor se refere aos fundos de ações sob gestão, e não à conta pessoal, que as estratégias são quantitativas e que nenhum gestor decidiu quanto comprar. Segundo ele, a quantia decorre da macroalocação: cada investidor define antes da crise um percentual-alvo para ações, conforme sua tolerância a risco. Com a queda, a fatia de ações nas carteiras dos clientes ficou abaixo do alvo, e a regra mandou comprar, com recursos de vendas de ações americanas ou de novos aportes.
Em exemplo hipotético, uma carteira de R$ 1 milhão com 30% em ações cairia para R$ 958 mil, e a fatia de ações iria a 26,96%. Para voltar à meta, seria preciso comprar cerca de R$ 29 mil, vendendo renda fixa. Na avaliação do apresentador, o método dispensa previsão eleitoral e coragem, pois obriga a comprar o que ficou barato e a vender o que ficou caro.
O que dizem a história e os riscos
Ferreira não afirma que o pior passou. Nas seis eleições presidenciais desde 2002, a bolsa caiu no dia seguinte ao segundo turno em quatro e fechou a primeira semana em alta em todas, mas nunca com tombo desse tamanho. Em 2014, a alta semanal de 5,18% antecedeu uma forte recessão, alta do desemprego e o impeachment de Dilma Rousseff. Ele cita ainda gestores que alertam para risco de bola de neve sem sinalização clara do governo.
O apresentador recorreu ao episódio de 2008, quando Warren Buffett anunciou compras de ações americanas: a bolsa caiu mais cerca de 20% em um mês, e o fundo só veio em março de 2009. Segundo ele, quem esperou o conforto teria cerca de US$ 62 mil para cada US$ 10 mil, contra US$ 115 mil de quem comprou no medo. Já o backtest da estratégia de ações baratas do canal, de 2004 a 2025, mostra 17,7% ao ano contra 9,4% do Ibovespa, com perda máxima de 32%, ante 29% do índice. O próprio canal ressalta que se trata de simulação e que rentabilidade passada não garante resultado futuro.



