Painel do Yahoo Finance vê fim da era dos 2% e teme dívida das empresas de IA em semana decisiva de balanços

Gestores discutem juros acima do neutro, distorções nos dados de inflação e o risco financeiro das neo-clouds às vésperas dos resultados das big techs

Your own price, the neo-clouds with no backstop, and AI comes for generalists | Market Hang Vídeo: Yahoo Finance / YouTube · 2 mil visualizações

Um painel de analistas do programa Market Hang, do Yahoo Finance, avaliou que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) opera em um ambiente em que a meta de inflação de 2% parece cada vez mais distante, os dados oficiais descrevem mal a experiência do consumidor e o endividamento das empresas de tecnologia se tornou o principal ponto de atenção para a temporada de balanços. A conversa, conduzida por Nancy Tengler, ocorreu pouco antes da entrevista coletiva do presidente do Fed, Kevin Walsh.

Segundo os participantes, o Fed segue guiando o mercado, ainda que de forma indireta. Mark Malek, diretor de investimentos da Siebert Financial, afirmou que, apesar do silêncio relativo de Walsh, outros dirigentes falam com frequência, e que os contratos futuros de juros e os swaps acompanham cada declaração. Para ele, a comunicação do banco central influencia o consumo mais do que uma alta de 25 pontos-base na taxa básica. Ken Mahoney, CEO da Mahoney Asset Management, disse que a elevação de um quarto de ponto sinalizou firmeza e que o mercado reagiu com cinco dias de ganhos, preferindo esse caminho ao de 2022.

Meta de inflação e a qualidade dos dados

Christine Short, chefe de pesquisa de eventos corporativos da TMX Wall Street Horizon, citou artigo de Greg Ip, do Wall Street Journal, segundo o qual alguns modelos apontam uma taxa neutra de 4,3%, acima do nível atual. Na avaliação dela, o próprio Walsh admitiu que a taxa vigente não é restritiva, o que sugere uma economia de juros mais altos e crescimento mais forte. Anna Rathbun, fundadora da Grenadilla Advisory, defendeu que o Fed deveria rever se 2% é a meta correta, citando fatores estruturais como a relocalização de cadeias produtivas, que encarece a produção nos Estados Unidos. Mahoney apontou 2,5% a 3% como o objetivo implícito.

Os analistas também criticaram a coleta de estatísticas. Tengler lembrou que o modelo de vendas no varejo data de 1950 e mencionou reportagem segundo a qual cerca de 30% dos insumos do índice de preços ao consumidor (CPI) seriam interpolados. Os participantes disseram que a inflação percebida pelo consumidor, com óleo de aquecimento, diesel e impostos escolares, difere do número oficial. Malek observou ainda que as vendas no varejo medem gasto, não volume, e podem esconder um consumidor menos saudável. Short disse levar mais a sério as pesquisas de confiança, em níveis historicamente baixos.

Balanços e o risco das neo-clouds

Para a semana de resultados de Google, Microsoft, ServiceNow e Amazon, Short disse que esta é a semana decisiva da temporada do terceiro trimestre. Segundo ela, as estimativas seguem sendo superadas, mas as receitas surpreendem menos. A analista citou o caso da Meta, que apresentou receita recorde, mas fluxo de caixa livre negativo, e foi punida pelos investidores. Os participantes elogiaram a Microsoft como a empresa mais equilibrada entre gasto e endividamento, com fluxo de caixa livre positivo, estimado em 37 bilhões de dólares e projetado para 45 bilhões.

Malek disse prestar mais atenção ao departamento de tesouraria das empresas do que ao roteiro de produtos. Em sua análise, há três camadas: as hiperescaladoras com caixa forte, as aspirantes como a Oracle e, abaixo, as neo-clouds, que ele descreveu como sem reservas a que recorrer e dependentes de dívida, inclusive de credores privados. Se elas falharem, alertou, a compra de chips e o ecossistema inteiro seriam afetados. Short mencionou o pedido de abertura de capital (S-1) da Anthropic e a preocupação com o financiamento circular: as obrigações de longo prazo com as hiperescaladoras estão em contrato, enquanto os clientes podem cancelar assinaturas, risco que a própria empresa cita.

Os analistas disseram que a energia substituiu os chips como gargalo. Short relatou que o CEO da GE Vernova considera 2027 e 2028 garantidos, mas vê incerteza de 2029 em diante por causa da resistência local a data centers. Rathbun e Malek ponderaram que o atual aquecimento em energia e memória pode se dissipar quando a oferta alcançar a demanda, e que empresas como Nvidia, Broadcom e Microsoft se sustentam pela capacidade de inovar.

No fim do programa, Malek afirmou que quem troca de emprego todo ano tende a virar generalista e que a inteligência artificial vai atrás dos generalistas, e defendeu a especialização. Short observou que o mercado de trabalho segue de poucas contratações e poucas demissões. As opiniões são dos participantes e não constituem recomendação de investimento.

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