Reeleição de Lula acende alerta fiscal e testa a confiança do mercado em um quarto mandato
Para Bruno Perini e o economista Rodrigo Viegas, dívida em alta, juros elevados e risco de dólar pressionado desafiam o governo reeleito
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva abriu um período de incerteza para os mercados. Segundo o economista Rodrigo Viegas, convidado do podcast Os Sócios, apresentado por Bruno Perini e Malu Perini, a queda da bolsa e o circuit break registrados após o resultado expressam desconfiança dos investidores quanto ao rumo da economia no quarto mandato.
Na avaliação de Viegas, o recado do mercado foi de que não se sabe para que lado o país vai andar. Ele afirma que os agentes aguardam rapidamente uma resposta do governo, e que a expectativa por um gesto fiscal, como a escolha de um nome para a economia ou um pacote de ajuste, já circula desde a véspera. O economista, porém, diz não estar otimista.
O mecanismo do risco
Viegas descreve um ciclo vicioso: quando investidores externos desconfiam de um governo, retiram dinheiro do país, o dólar dispara, a inflação é pressionada, os juros sobem e a economia desacelera. Para ele, o país está hoje "na beira do abismo", e a dúvida é se o governo vai "abrir o paraquedas" a tempo.
O economista considera que o Brasil tem uma trajetória de dívida descontrolada, que exigiria corte de gastos e desindexação do salário mínimo. Segundo ele, parte relevante da dívida pública, cerca de 50%, cresce acompanhando a Selic, o que tira o alívio que países como Japão e Estados Unidos obtêm com títulos prefixados. Ele cita ainda que o país já pagou mais de um trilhão de reais em juros neste ano e no anterior, e que as reservas internacionais deixaram de superar a dívida em dólar.
Perini e Viegas lembram o episódio de dois anos atrás, quando o dólar chegou a R$ 6,40 depois de a equipe econômica sinalizar que não controlaria as contas. Na visão do economista, o governo só recuou quando a pressão se tornou excessiva.
Juros, inflação e o Banco Central
Os interlocutores apontam outros focos de pressão inflacionária. Segundo Perini, o diesel está represado por meio da Petrobras, com defasagem de basicamente 100% frente aos preços internacionais, com o barril em torno de US$ 100. Quando o preço for liberado, afirma, será "inflação na veia". O apresentador diz também que a inflação está no teto da meta, em torno de 4,5%, mesmo com o juro real mais alto do mundo.
Os dois destacam o papel de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, que, segundo eles, manteve juros altos para conter a inflação e foi criticado por Lula. Para Viegas, o juro elevado é a precificação do risco fiscal brasileiro. A preocupação de Perini está na sucessão, daqui a dois anos: um eventual nome indicado para reduzir a Selic "na canetada" poderia, segundo ele, trazer risco inflacionário enorme, como ocorreu no governo Dilma.
Na avaliação de Viegas, a economia ficou disfuncional: com o Banco Central freando a atividade e o governo estimulando o crescimento por gastos, cortar despesas pode trazer recessão e continuar gastando pode disparar a inflação. Ele espera um governo "morno", sem uma agenda de reformas ao estilo da "ponte para o futuro" de Michel Temer.
Política e o cenário à frente
Sobre a eleição, Viegas atribui a virada no segundo turno à mobilização da esquerda na internet e a promessas de gasto que, em sua análise, atraíram eleitores de menor renda. Ele avalia que a escolha de Flávio Bolsonaro como candidato foi equivocada e que a rejeição do nome limitou a direita no segundo turno. Já o Congresso eleito tem maioria mais à direita, mas o economista diz não confiar que os parlamentares se manterão fiéis a posições ideológicas.
O debate deixou uma conclusão: pela primeira vez, na leitura dos apresentadores, a conta dos desequilíbrios fiscais tende a chegar ao governo que os criou. O episódio completo não detalhou recomendações de alocação de investimentos.



